A Linguagem Científica

A linguagem científica está relacionado ao padrão de escrita que os autores de textos científicos se utilizam para poder transmitir informações científicas. Na leitura de um artigo ou trabalho científico percebe-se que há uma série de padrões de escritas que são seguidos para que a informação seja transmitida. Muitos autores se confundem na hora de escrever um texto científico, devido a esse texto possuir algumas características que os diferem de textos literários.  Devido a isso, esse texto irá chamar a atenção para algumas dessas características que precisam ser consideradas na escrita desse  texto. 

Um texto científico deve ser escrito de forma objetiva. Essa escrita implica que o texto precisa ser imparcial. Isso indica que a informação deve ser apresentada de forma a refletir a realidade sem a influência de qualquer crença do autor/leitor. Um erro bastante comum em textos científicos é a utilização de pronomes pessoais de 1ª pessoa (eu, nós) na construção do texto. É relativamente comum quando se está começando a escrever artigo, escrever frases como “Nossa proposta utiliza / Eu obtive os seguintes resultados”. Tais frases poderiam ser modificadas para “A proposta utiliza / Os resultados obtidos foram” sem ter nenhuma perda para a mensagem a ser transmitida e mantendo o rigor da escrita científica. O uso da subjetividade é uma característica de textos literários, esses textos permitem que o autor expresse a sua opinião acerca do assunto e influencie o leitor. 

Por ser objetivo, o texto científico apresenta uma uniformidade na sua escrita, isso permite que não haja mais de uma interpretação, permitindo que a mensagem seja passada de forma única para qualquer leitor. Nesse sentido, Joseph Gusfield o comparou com uma vitrine que apresenta o outro lado (o conteúdo) de forma clara e nítida. Devido à busca dessa nitidez, há uma grande aversão no meio científico na utilização de figuras de linguagens, como a metáfora. Apesar disso, Ciapuscio [2] fez um contraponto sobre o uso dessa figura de linguagem no viés científico, chegando a indicar o uso dela para facilitar a transmissão do conhecimento. Segundo ele, o uso da metáfora “O DNA é um código genético” permitiu que fossem abertos campos de pesquisa na área. Apesar desse exemplo, de forma geral, assim como disse o autor do texto citado, o uso de alguns tipos de metáforas acabam sendo mal visto no meio científico. 

Por fim, outro ponto que deve ser considerado quando estiver escrevendo um texto científico é a sua finalidade. O texto científico deve ter como propósito transmitir para o leitor os resultados obtidos pelo experimento ou esclarecer um fenômeno estudado. Em nenhum momento o texto deve perder esse viés e tentar entreter ou enlevar o leitor, esses sentimentos são intrínsecos de textos literários. 

Nesse texto foi feito uma comparação da linguagem científica e a linguagem literária a partir de algumas características encontradas nessas duas escritas. O texto científico apresenta um rigor que lhe obriga a ser escrito de forma clara e sem a subjetividade do escritor. Esse rigor se faz importante para que a ciência não seja contaminada por crenças ou dogmas do leitor, ou escritor. 

Referências

Duarte. V. M. N. Diferenças Entre Redação Científica e Redação Literária. Brasil Escola. Disponível em: < https://monografias.brasilescola.uol.com.br/regras-abnt/diferencas-entre-redacao-cientifica-redacao-literaria.htm> . Último acesso: 28 de julho de 2020. 

CIAPUSCIO, G. E. Metáforas e ciência. Ciência Hoy, v.13, n.76, p.60-66, ago/set 2003. Disponível em <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/fisica/0005.html >. Último acesso: 28 de julho de 2020. 

Incentivar a colaboração é um dos caminhos para melhorar a ciência brasileira e da América do Sul

O Brasil é o maior país da América do Sul. Ele divide esse subcontinente com outros onze países e alguns territórios, como a Guiana Francesa e Aruba, que dependem de outros países.

Apesar de no contexto global o Brasil ocupar posição, no mínimo, desconfortável, quando se considera seu tamanho, sua população e seus recursos, no panorama sul-americano ele é protagonista. Nesse contexto o Brasil se destaca por ser a nação com a maior quantidade de publicação e com uma grande quantidade de instituições de alto nível. 

Segundo o relatório “Research in Brazil: A report for CAPES by Clarivate Analytics” [1] que avaliou o período de 2011 a 2016 do cenário de pesquisa no país, o Brasil encontra-se na 13ª posição entre os países que mais produziram trabalhos científicos. Nenhum outro país sul-americano apareceu no ranking apresentado pelo relatório. O que demonstra que o país possui uma posição de destaque na produção de conhecimento na região. Por outro lado, o Brasil apresenta um baixo fator de impacto, quando comparado com a média mundial. O fator de impacto das produções brasileiras é de 0,78, enquanto a média mundial é de 1,00. Nesse quesito, o Brasil fica atrás da Argentina que apresenta um fator de impacto de 0,92. Esse país ainda apresenta uma presença maior de colaboração com a indústria (3,57) enquanto o Brasil apresenta  3,2.

Quando é falado em Universidades, o Times Higher Education (THE) [2] divulgou recentemente uma pesquisa que analisa as universidades sul-americanas de acordo com ensino, pesquisa, citações, visão internacional e transferência de conhecimento para a indústria. Nesse ranking, o Brasil desponta como país com maior representação. Ao todo aparecem no ranking 61 instituições (de 166) de ensino brasileiras enquanto o Chile, segundo colocado em aparição, possui 30 instituições. O mesmo ranking apresenta a PUC-Chile como a instituição mais bem avaliada da região. Seguido por duas instituições brasileiras, a USP e a Unicamp. Entre as dez primeiras posições, sete são brasileiras sendo elas: UFMG (empatado na 5ª), UNIFESP (empatado na 5ª), PUC-Rio (7ª), UFSC (9ª) e UNESP (10ª). O Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey (4ª) e a Universidade do Chile (8ª) forma as 10 primeiras posições.  Sobre colaboração com os países vizinhos, na pesquisa da Clarivate Anlytics já há a indicação que há uma tendência crescente em colaborações entre os pesquisadores brasileiros e de instituições sul-americanas. Ainda há uma constatação muito interessante, trabalhos de pequisas que são feitos em colaboração com outros países possuem um maior fator de impacto. Nesse quesito o relatório “Research in Brazil: Funding excellence” apresenta mais detalhes referente ao período entre 2013 e 2018. Nele, é apresentado que em certas áreas, quando há a colaboração com países vizinhos, o impacto do trabalho chega a duplicar ou triplicar (Figura 1).


Figura 1. Fator de impacto de publicações com colaboração internacional nas áreas de Engenharia, e Ciências Exatas e da Terra.
Fonte: Research in Brazil: Funding excellence [3].

 

Apesar de o Brasil ser uma referência no continente, existem muitos outros casos de sucesso na região. Quando comparadas as Universidades, como indicados no THE, a PUC-Chile fica na frente de instituições brasileiras. Em relação ao fator de impacto geral das produções científicas, as publicações de pesquisadores argentinos possuem uma maior relevância e uma maior colaboração com setores industriais. Em contrapartida, o Brasil possui os maiores números de publicações e uma maior presença entre as melhores instituições de ensino superior da América do Sul. Essas informações por si só já demonstram como é importante incentivar a troca de experiências entre pesquisadores brasileiros e de países sul-americanos, pois além de incentivar o progresso da região, essa colaboração já evidencia que as pesquisas ficam mais relevantes e criam uma unidade no continente.

Referências

[1] Cross, Di; Thomson, Simon; Sinclair, Alexandra. Research in Brazil: A report for CAPES by Clarivate Analytics. Clarivate Analytics. 2018. Disponível em: <https://www.capes.gov.br/images/stories/download/diversos/17012018-CAPES-InCitesReport-Final.pdf>. Acesso em 20 de julho de 2020. 

[2] Bermúdez, Ana Carla. Veja as 20 melhores universidades da América Latina, segundo ranking do THE. Educação UOL. Disponível em < https://educacao.uol.com.br/noticias/2020/07/07/as-melhores-universidades-da-america-latina-segundo-o-the.htm>. Acesso em 20 de julho de 2020. [3] Web of Science Group. Research in Brazil: Funding excellence. Clarivate Analytics. 2019. Disponível em: <https://jornal.usp.br/wp-content/uploads/2019/09/ClarivateReport_2013-2018.pdf >. Acesso em: 20 de julho de 2020.

O Brasil precisa formar doutores

O doutorado é o ápice da carreira acadêmica de um indivíduo. Ao iniciá-lo, o estudante assume um compromisso de avançar para além da fronteira da ciência e desenvolver habilidades que são esperadas num pesquisador, razão pela qual esse processo dura em média quatro anos.

Apesar de o Brasil ter conseguido um incremento considerável de profissionais com essa formação nas últimas décadas, o panorama geral ainda mostra uma um grande abismo quando os números brasileiros são comparados com a realidade de outros países.

De acordo com pesquisa apresentada em 2015 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) [1], a taxa de programas de doutorado vem crescendo no Brasil de forma significativa desde 1996. A mesma pesquisa apresenta que os programas multidisciplinares foram os que mais cresceram no período analisado (1.654,5%). Por outro lado, os doutorados voltados para a área das ciências exatas e da terra tiveram o menor crescimento (102,2%) dentre os analisados. Todo esse aumento de oferta também fez com que fossem formados mais doutores. No período analisado houve um crescimento de 486,2% na concessão desses títulos no país. Novamente as áreas multidisciplinar e de ciências exatas da terra continuaram nos extremos quando se tratou de quantidade de formandos. Sendo o aumento de formandos nessas duas áreas de 36.600% e 250,8%, respectivamente.

Apesar desse aumento considerável na formação de doutores, o Brasil ainda está muito distante das nações consideradas desenvolvidas. De acordo com as informações apresentadas no relatório técnico da Capes de 2017 [2], que se baseia em uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na ocasião o Brasil possuía aproximadamente 8 doutores (7,6) por 100 mil habitantes, enquanto que a média entre os países desta organização era de 28 doutores para cada 100 mil habitantes. Essa baixa proporção da população com doutorado fez com que o Brasil aparecesse nas últimas posições do ranking apresentado na pesquisa, ficando apenas na frente do México e Chile que apresenta, 4,2 e 3,4 doutores por 100 mil habitantes, respectivamente. O país logo a frente do Brasil no ranking é a Hungria com uma média de 11,6 doutores por 100 mil habitantes (42% a mais que o Brasil) e o mais bem colocado foi a Eslovênia com 56,6.

Evidentemente que o doutorado não está nos planos de muitos dos estudantes que ingressam na educação superior, assim como nem todo mundo precisa ter uma educação superior para desempenhar seu papel numa sociedade. Contudo, o fato é que mesmo aqueles que têm interesse no doutoramento acabam encontrando mais dificuldades do que facilidade nesse percurso. Pode-se citar os frequentes cortes de bolsas de pós-graduação (e na ciência)[3], a falta de apoio financeiro para participação em eventos ou para desenvolvimento de atividades de pesquisa. Aliado a esses problemas, que muitos tem haver com questões políticas, encontra-se um fato que é uma característica brasileira, os setores empresariais ainda absorvem poucos doutores. Essa realidade faz com que o doutorado acabe formando um excelente profissional que retorna para a Academia, diferente de outros países onde eles vão ocupar posições nos mais diversos setores [4]. Esse cenário pode ser percebido na pesquisa feita pela CGEE no qual apresenta que a maior parte dos doutores formados no período analisado foram ocupar cargos na área de Educação. 

Diante do que foi exposto, evidencia-se a necessidade de um plano nacional para formação de doutores nas mais diversas áreas de estudos. Algo desse tipo é custoso, mas necessário para o progresso do país. Através dele espera-se que seja criado um ambiente necessário para que o Brasil possa avançar na proporção de doutores para se aproximar dos valores encontrados em países desenvolvidos. Além do apoio financeiro para a formação, se faz necessário criar mais facilidades para que as empresas tenham interesse em empregar tais profissionais, como por exemplo o programa Pesquisador na Empresa do Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE) [5] que foi criado em 1987 para inserir mestres e doutores em empresas privadas de micro, pequeno e médio porte, mas que foi encerrado devido a restrições orçamentárias no fundo, que garantia o pagamento das bolsas.  

Referências

[1] Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Mestres e doutores 2015 – Estudos da demografia da base técnico científica brasileira. Brasília, DF. 2016. Disponível em: <https://www.cgee.org.br/documents/10195/734063/MeD2015.pdf/d4686474-7a32-4bc9-91ae-eb5421e0a981>. Acesso em: 13 de julho de 2020. 

[2] CAPES. Relatório Técnico da DAV – Egressos da Pós-graduação: Áreas Estratégicas. Brasília, DF. 2017. Disponível em: <https://www.capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/19122018_Cartilha-DAV-Egressos.pdf>. Acesso em: 13 de julho de 2020. 

[3] Jucá, Beatriz. Cortes de verbas desmontam ciência brasileira e restringem pesquisa a mais ricos. Portal El País (Brasil).  Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/03/politica/1567542296_718545.html>. Acesso em: 13 de julho de 2020. 

[4]  Langin, Katie. In a first, U.S. private sector employs nearly as many Ph.D.s as schools do. Portal da Science Magazine. Disponível em <https://www.sciencemag.org/careers/2019/03/first-us-private-sector-employs-nearly-many-phds-schools-do>. Acesso em: 14 de julho de 2020. 
[5] RHAE. Portal do CNPq. Disponível em: <http://cnpq.br/apresentacao-rhae>. Acesso em: 13 de julho de 2020.

CIÊNCIA ENQUANTO LATINO-AMERICANO

Uma das primeiras disciplinas cumpridas no mestrado originou um artigo, que conseguimos publicar em conferência internacional classificada entre os estratos superiores. A forma como conseguimos financiar os custos da viagem foi uma prova da criatividade latina: os autores do artigo dividiram as despesas da viagem, o professor que foi apresentar presencialmente o trabalho teve um desconto na inscrição por ser membro da IEEE, e a POLI nos apoiou também, reembolsando a maior parte desta inscrição. Tentamos outros apoios, mas por restrições orçamentárias dos órgãos, foram negados.

A conferência aconteceu em maio de 2019, e começamos a procurar ajuda para os recursos desde o momento em que soubemos da aprovação do artigo, em janeiro de 2019. Enfrentamos dificuldades, mas com o apoio dos envolvidos, e das instituições, conseguimos superá-las; não se sabe se conseguiríamos caso fosse em 2020, dadas as modificações que a pós-graduação do Brasil vem sofrendo nos últimos meses.

Em países como o Brasil, onde a educação não é tratada como prioridade pelo primeiro escalão do governo, é fundamental que se utilize a inventividade latina, a fim de se conseguir financiamento para pesquisas em setores da indústria que podem ser beneficiados pelos avanços tecnológicos provenientes destas pesquisas. E não se faz necessário ir para muito longe atrás destes incentivos à pesquisa vindos da indústria: Pernambuco possui exemplares de indústrias em cada uma das quatro revoluções industriais, e o avanço que uma delas poderia considerar trivial, pode ser vital para outra. Contudo, nem toda a indústria é receptiva a inovações como as trazidas por campos como a Computação Inteligente, dada a componente de experimentação inerente à área. Sendo assim, uma atitude positiva das organizações é necessária, caso contrário, todo o potencial será desperdiçado.

É importante que o pesquisador trabalhe com tópicos de seu interesse, para não transformar o trabalho em algo desgastante. Todavia, é preciso mais uma vez invocar a originalidade latina [1], a fim de que o pesquisador encontre um tema que consiga unir seus interesses com os do povo, e com os dos financiadores da pesquisa. Este modelo não convencional é necessário para diminuir o verdadeiro abismo que existe entre a academia e a indústria no Brasil, e atualmente, também entre a academia e alguns setores da sociedade e do governo, por mais inacreditável que esta realidade possa parecer.

As novas técnicas podem desempenhar papel de destaque na mudança de percepção da comunidade em relação à Ciência e Tecnologia. Elas vêm popularizando áreas como a Inteligência Artificial, até bem pouco tempo vistas como inacessíveis e exclusivas de nichos acadêmicos. Podem até mesmo trazer novos candidatos a cientistas ao meio acadêmico, vindos dos locais mais inusitados. Para que esta abertura no recebimento de novos membros no clube da ciência funcione, nós, já iniciados, devemos ter um olhar livre de preconceitos, como é esperado em um lugar multicultural como a América Latina, com suas diferentes realidades amalgamadas em um mesmo local.

Referências

1:            Cartagena, Colômbia, em 04/11/2016 – Key-Talk at 2016 IEEE LA-CCI “Possible roles of AI/CI in Latin America”, Fernando Buarque, University of Pernambuco et alli, acessado em 14/07/2020, disponível em https://youtu.be/P_SoCXR9pwI

A AMÉRICA LATINA EM BUSCA DO RECONHECIMENTO CIENTÍFICO

Mozart de Melo Alves júnior
[email protected]

A América Latina do ponto de vista do reconhecimento científico não se encontra em situação de destaque. Dados da Science and Engineering Indicators da National Science Foundation (2020), mostram que dos 20 países que mais publicam artigos científicos proporcionalmente ao número de autores, na América Latina (AL) apenas o Brasil figura em 11º posição, o que representa cerca de 60.147artigos de um total de 108.130 de toda AL o que reflete mais de 55% das publicações. Apesar de ser extremamente positivo para ao Brasil, esses dados são preocupantes com relação a América Latina.

Ao analisar a base (NSF, 2020) verifica-se, que não existe outros países latinos na lista de produções científicas, sendo os mais próximos o México na 24ª e a Argentina 42ª posição o que demonstra que um longo caminho deverá ser trilhado em busca do reconhecimento científico.

Figura 1 – 20 países que mais publicam proporcionalmente com relação aos número de autores

Fonte: (NSF, 2020)

De acordo com Centoducatte, reitor da Universidade Federal do Espírito Santo (MARLUCE MOURA, 2019), se compararmos a produção científica da américa latina, temos apenas 4,75% em relação ao mundo e este número só não é pior porque somente o Brasil é responsável por 2,52% das publicações.

Baseado nos dados estatísticos levantados anteriormente, questionamentos surgem, como é possível a América Latina ficar tão distante em termo de pesquisa dos grandes centros mundiais. Se faz necessário verificar outros indicativos para entender melhor o problema.

O primeiro indicativo trata dos recursos financeiro investido em pesquisa por estes países. Segundo o instituto de estatística da UNESCO(2018), se a américa latina fosse um país o seu investimento em P&D seria na ordem de 65 bilhões de dólares, o que se comparado com os outros países, ela ocuparia a 6º posição, atrás apenas dos EUA, China, Japão, Alemanha e Coreia do Sul. No infográfico apresentado pela howmuch (UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS, 2018) a seguir, percebe-se que o Brasil investe cerca de 42,1 Bilhões de dólares enquanto os demais países da América Latina investem muito abaixo disso. O questionamento que fica é como a pesquisa evolui sem investimento.

fonte:

https://howmuch.net/articles/research-development-spending-by-country

Outro indicativo, é a quantidade de publicações acadêmicas realizadas segundo com a The Centre for Science and Technology Studies (2020), temos a Universidade de São Paulo em 7º lugar mundial em quantidade de publicações, com 17,2 mil artigos indexados no Web of Science. Isso é uma posição honrosa, mas não suficiente para alavancar a média da América Latina, ao analisar os dados completos, depois da USP, só teremos na 104ª posição a universidade mexicana National Autonomous University of Mexico.

Fonte: Leiden Ranking.

Um outro indicativo trata da relevância em nossas publicações, comparando com o ranking de impacto (quantas vezes as publicações foram referenciadas), por quantidade de publicações acadêmicas, segundo a (CWTS, 2020), houve uma queda drástica do Brasil para o 90º lugar, isso significa que parte do que publicamos não é referência mundial, com relevância de apenas 5,9% dos artigos publicado.

Fonte: Leiden Ranking.

Novos questionamentos vêm à tona, o que está acontecendo de errado? Temos produções de artigos, temos investimento e por qual motivo não temos reconhecimento da relevância em nossas publicações? Como uma região tão prospera que possui suas diversidades culturais incomparáveis, pesquisadores reconhecidos no mundo inteiro, não consegue evoluir na aprovação e reconhecimento de suas pesquisas. Sabe-se que vários fatores influenciam na evolução da produção científica como: linha de financiamento, participação da iniciativa privada, políticas publicas, prioridade à educação, dentre outros, mas precisamos encontrar novos caminhos.

Infelizmente a américa latina é dividida, onde as diferenças sócio-cultural e política influenciam decididamente em nossas produções cientificas. Somente com a união e com o fortalecimento dos laços entre os países, principalmente no que tange a educação, tem como avançar e evoluir em busca de um caminho mais promissor. A educação precisa ser a prioridade, o trabalho é árduo, mas se faz necessário começar.

Referência

NSF – NATIONAL SCIENCE FOUNDATION (US). Science & engineering indicators. National Science Foundation, 2020. Disponível em: https://ncses.nsf.gov/pubs/nsb20206/publication-output-by-region-country-or-economy. Acesso em: 20 jul. 2020

MARILUCE MOURA (Brasil). Ciência na Rua. SBPC e Andifes propõem que se ofereçam informações corretas ao presidente. 2019. Disponível em: https://ciencianarua.net/sbpc-e-andifes-propoem-que-se-oferecam-informacoes-corretas-ao-presidente/. Acesso em: 19 jul. 2020

UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS. How Much Your Country Spends on Research & Development. UNESCO Inst for Statistics, 2018, Disponível em: http://uis.unesco.org/apps/ visualisations/research-and-development-spending/ Acesso em: 19 jul. 2020

CWTS – CENTER FOR SCIENCE AND TECHNOLOGY STUDIES (US). CWTS Leiden Ranking 2020, 2020. Disponível em: https://www.leidenranking.com/ranking/2020/list

Acesso em: 20 jul. 2020

Desenvolvimento da Ciência na América Latina

A américa latina é uma região do continente americano constituída, em sua grande maioria, por países que possuem idiomas originados a partir do latim. A maioria dos países possuem relações de colônias semelhantes, onde foram ocupados por portugueses, espanhóis ou franceses, durante um longo processo de exploração. Devido a sua grande ocupação territorial e colonização por países distintos, essa região é muito diversificada do ponto de vista geográfico e cultural, sendo ocupada pela maior floresta preservada do mundo, a floresta amazônica, tendo o Brasil como o país com maior extensão territorial da região.

Devido a grande diversidade cultural e climática da América Latina, há diversas regiões desse conjunto de países com histórias distintas, principalmente no que se refere ao tipo de colonização que receberam, sendo caracteristicamente de exploração nas regiões mais próximas à linha do equador. Isso explica a realidade atual, onde líderes de opinião e jornalistas em 2019 estabeleceram a corrupção, o desemprego, a instabilidade política, a criminalidade e a desigualdade social, nessa ordem, os principais problemas da região (IPSOS, 2019).

Nessa situação, em uma região com cultura, idioma, clima, fauna e flora tão diversos, é certo que seu potencial ainda não é explorado em sua plenitude do ponto de vista científico. Vessuri (1987) relata em seu estudo o crescimento de atividades científicas após a segunda guerra mundial apesar de ainda apresentarem fragilidade, depositando as chances de sucesso no preenchimento das lacunas entre academia, indústria e tomadas de decisões públicas. Esse cenário é observado até os dias atuais em que há distanciamento entre a academia e a indústria para o desenvolvimento de pesquisas em áreas importantes.

A maioria dos países latino-americanos possuem como referência os países desenvolvidos, como europeus ou norte-americanos, para compartilhamento e articulação científica, devido aos elevados investimentos na ciência. Porém, o intercâmbio local também pode gerar frutos fazendo com que ocorra o desenvolvimento da região através do uso da ciência e tecnologia para solução de problemas locais e expandindo o horizonte de alcance. O Relatório de Ciência da UNESCO: Rumo a 2030 (UNESCO, 2015) informa a redução dos níveis de desigualdade na década anterior e o registro de avanços em termos de acesso ao ensino superior, mobilidade e produção científica.

Além da produção científica, em nossa região, é necessário o alinhamento com políticas de divulgação da ciência para que a mesma tenha o alcance necessário a vários níveis da sociedade como na educação desde as crianças nas escolas, os desenvolvedores no ensino superior e a indústria consumidora das novas tecnologias. Ainda é pequeno o estímulo e a publicidade para criação de projetos inovadores em feiras de ciências escolares, apesar do grande crescimento recente de acesso às tecnologias no cotidiano das pessoas.

Por isso, a grande importância de realização de eventos científicos envolvendo grupos de pesquisa científica da América Latina para interação entre os pesquisadores, possibilitando o compartilhamento de experiências semelhantes de uso da ciência para o desenvolvimento da sociedade latino-americana, além de realizar a divulgação de trabalhos desenvolvidos na mesma região para a sociedade e permitindo integração entre a academia, o setor industrial e população local.

Referências:

IPSOS. Principales problemas de América Latina – Encuesta a líderes de opinión. 2019. Disponível em: <https://www.ipsos.com/sites/default/files/ct/news/documents/2019-10/ 6300119inf_v6_28oct19.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2020.

UNESCO. Relatório de ciência da UNESCO: Rumo a 2030-Visão Geral e Cenário Brasileiro. [S.l.]: UNESCO Paris, 2015.

VESSURI, H. M. The social study of science in latin america. Social Studies of Science, Sage Publications, v. 17, n. 3, p. 519–554, 1987.

Ciência e Tecnologia Desenvolvida por Pesquisas Através da Formação de Doutores no Brasil

A ciência e tecnologia tem grande poder de influência no estilo de vida de toda a sociedade moderna e também da sociedade antiga, porém com menor evolução nesta ultima. Através dos avanços da ciência são percebidas grandes mudanças nos meios de comunicação, forma de trabalho, alimentação e meios de transporte, por exemplo. No fim do século XX era difícil imaginar pessoas trabalhando remotamente por um longo período sem possuir um local fixo para ser a sede de sua empresa para onde todos os funcionários se deslocavam diariamente para exercer suas atividades laborais. No entanto, o que atualmente ocorre são milhares de pessoas trabalhando remotamente possibilitadas pelas evoluções promovidas pela ciência através dos meios de comunicação via satélite e desenvolvimento da internet.

A evolução científica de uma comunidade, além de permitir mudanças no estilo de vida, possibilita grandes benefícios na medicina, qualidade de vida, solução de problemas sociais, monitoramento de recursos naturais, ampliação do acesso à atividades de lazer e educação, etc. Porém, essa evolução não ocorre do dia para a noite, requer muitos investimentos econômicos e sociais para almejá-la. Durante esse processo é necessário o apoio ao pensamento crítico e imparcial a respeito das descobertas científicas utilizando a própria ciência para debater as novas descobertas dando um basta ao “achismo”. O anseio pela promoção do conhecimento pode fazer com que as etapas do desenvolvimento científico sejam aceleradas ou até deturpadas acarretando em execuções incorretas e gerando resultados imprecisos a respeito do problema proposto. Isso pode ocorrer, principalmente, em momentos de grande apreensão da sociedade por resultados expressivos a cerca de um determinado tema, como, por exemplo, o desenvolvimento de uma vacina para a cura de uma doença grave que assola a sociedade.

A etimologia da palavra “ciência” tem sua origem do latim do termo “scientia” que significa conhecimento. Então, pode-se afirmar que a ciência é a procura incessante pelo conhecimento e compreensão do funcionamento das coisas no universo, surgindo da necessidade que o homem, como ser racional, possui de explicar os fenômenos que ocorrem na natureza. Descartes (1973) traz em sua obra “O discurso do Método ” a apresentação de um método que foi por ele utilizado para conduzir a razão, podendo ser utilizado pelos leitores para conduzir sua própria razão em busca da verdade. A ideia proposta por Descartes (1973) é composta por quatro partes, resumidas em coleta crítica de informações, análise ou divisão para melhor compreensão e solução, ordenamento de ideias das mais simples até as mais complexas e por ultimo a separação detalhada das conclusões para que nada seja omitido.

Atualmente, para o desenvolvimento da ciência de acordo com a proposta por Descartes (1973) é necessário a formação de profissionais capacitados, que sejam bastante criteriosos em suas pesquisas. No Brasil, a formação de pessoas para a carreia científica segue uma longa jornada composta por um curso de graduação com duração de quatro a seis anos, um curso

de mestrado de dois anos e o doutorado com mais quatro anos de formação. Totalizando mais de 10 anos de estudos, pesquisas, batalhas e obstáculos que não acabam após esse período. O cientista possui uma profissão que requer constante aprendizado e evolução. Durante a formação desse profissional há diversos companheiros, como os colegas de pesquisa e o orientador, ou supervisor, que possui papel fundamental para guiar o cientista em formação para que consiga adquirir as qualidades de pesquisador independente.

O ápice da formação de um pesquisador está no seu doutoramento, onde é necessário o desenvolvimento de uma pesquisa inédita que irá creditar ao formando a capacidade de produção de conhecimento, ou seja, desenvolvimento da ciência. Deixando de ser um mero consumidor do conhecimento produzido por outros pesquisadores e passando a criar, criticar, interagir com o meio científico contribuindo para o desenvolvimento da sociedade. Essa evolução do pesquisador decorre do amadurecimento de sua curiosidade pela descoberta de novos fenômenos, que deve ser aprimorada através do desenvolvimento de métodos de aprendizado e pesquisa adequados a sua realidade, que ocorrem, na maioria das vezes, durante o doutorado.

Apesar dessa longa formação profissional, os cientistas Brasileiros ainda enfrentam muitas dificuldades que vão além das suas pesquisas durante e após a sua formação, como a falta de um plano de carreiras que reconheça a sua formação profissional como uma maneira de trabalho formal, onde possuam deveres a cumprir, mas também direitos como trabalhadores. Isso poderia estar respaldado pelas leis trabalhistas, promovendo os benefícios durante a formação complementar, como mestrado e doutorado. Além disso, por se tratarem de uma ínfima parcela da população, os que possuem nível superior e pós-graduação, ainda há grande preconceito velado a respeito de quem “só estuda”, onde o fato de estudar e desenvolver uma pesquisa científica, muitas vezes não é creditado e reconhecido como uma forma de trabalho.

Portanto, visando o desenvolvimento social, a melhoria na qualidade de vida e o bem estar de todos, a ciência deve ser promovida de maneira a aproximar suas descobertas à sociedade, observando cada vez mais a importância do papel de cada um nesse processo, do cidadão comum que irá usufruir dos resultados da ciência e do pesquisador além de usufruir desses resultados verá o seu trabalho ajudando a melhorar ou até salvar a vida das pessoas.

Referências:

DESCARTES, R. Discurso do método: Meditações: Objeções e respostas: As paixões da alma; Cartas. [S.l.]: Abril Cultural, 1973.

CAPACIDADE DE DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO: COMPETÊNCIA ESSENCIAL DOS CIENTISTAS E DIRIGENTES PARA PESQUISAS E PARA POLÍTICAS PÚBLICAS

O mundo está mudando muito rápido. Nesse sentido para obter relevância e contribuirmos no que realmente possui valor e é importante para o futuro, nós do mundo acadêmico, não podemos nos afastar da capacidade de diagnóstico estratégico e da força de implementação. Uma “boa estratégia é aquela que permite explorar competências essenciais e obter vantagem competitiva” (HITT et al.; 2008). A competitividade vista sob a perspectiva da busca da capacidade de entregar mais com menos e em menos tempo em benefício social e individual deve ser perseguida por todos que desejam prosperidade a partir do consumo racional, sustentável e inteligente de recursos.

Entretanto, para competir de forma eficaz se faz necessário a identificação das competências essenciais capazes de proporcionar vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Nesse sentido, a busca de um conjunto coordenado e integrado de compromissos e ações para explorar as competências essenciais e obter vantagem competitiva deve ser compreendida como uma skill emergente do mundo, seja acadêmico ou organizacional (público ou privado). A própria definição dos problemas de pesquisa exige uma articulação dos temas com aspectos como relevância, viabilidade e originalidade, e o conhecimento produzido nessas balizas é capaz de promover sim inovação científica e tecnológica. O ensino também pode cumprir um papel fundamental na formação de quadros com alta capacidade de aplicação, especialmente quando utiliza métodos que favoreçam o enfrentamento a problemas do mundo real, e não apenas meras abstrações. E isso pode virar o jogo da desigualdade a favor de qualquer nação.

Dado isso, o incentivo aos cientistas e a escolha dos dirigentes de políticas públicas, que articulem ações consistentemente conectadas a um projeto de sociedade e nacional, considerando articulação da capacidade de diagnóstico e de implementação de estratégias, se apresentam como necessidades alarmantes e urgentes. O documento “GLOBAL ISSUE: Fourth Industrial Revolution”, do Fórum Econômico Mundial (que foi recentemente atualizado para o contexto da Pandemia mundial de Covid-19, incorporando a influência acelerativa que o momento histórico tem produzido) destaca, dentre outras questões, a importância de políticas públicas com visão de longo prazo, bem como a necessidade de uma atuação ética e para atendimento de múltiplas partes interessadas, e pode servir como um importante farol de linhas mestras para elaboração de estratégias conectadas à quarta revolução industrial.

A imagem anexo I mostra um roadmap sobre o desenvolvimento de competências para quem deseja ser um profissional Data Science “BIG DATA ANALYTICS DATA MINING MACHINE LEARNING”. Essa é uma das mais promissoras profissões para “quarta onda” no mundo do trabalho, e é comum se ouvir a máxima: “antes de alguém aprender tudo isso o conhecimento já estará obsoleto”. E no roadmap não há nenhuma skill relacionada a ética, por exemplo. Esses profissionais podem vir a ser os engenheiros chefes do futuro da humanidade, e isso deveria ser uma preocupação estratégica em sua formação, segundo a própria visão do Fórum Econômico Mundial.

Portanto, o investimento em recursos humanos e materiais não pode ser obra do acaso. Deve ser minuciosamente planejada, concebida estrategicamente, como uma política pública de longo prazo, pois assim, aumentamos nossas chances de estarmos em melhores condições competitivas. Que tal desenharmos esse roadmap?

REFERÊNCIAS

AMARO, RODRIGO GAYGER. Notas de aula do professor no III MBA em Finanças e Investimentos – Estratégia Empresarial, 2015.

HITT, M. A.; IRELAND, R. D.; HOSKISSON, R. E. Administração Estratégica: competitividade e globalização. São Paulo: Thomson Learning, 2008.

WEFORUM. GLOBAL ISSUE: Fourth Industrial Revolution. Disponível em:  <https://www.weforum.org/agenda/2016/01/the-fourth-industrial-revolution-what-it-means-and-how-to-respond/>, acesso em 21/07/2020.

WEFORUM. GLOBAL ISSUE: Fourth Industrial Revolution. Disponível em:  <https://intelligence.weforum.org/topics/a1Gb0000001RIhBEAW?tab=publications>, acesso em 21/07/2020.

GITHUB. Data Scientist Roadmap.  Disponível em:  <https://github.com/MrMimic/data-scientist-roadmap>, acesso em 21/07/2020.

ANEXO I